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Melhorias Recentes das Notas dos Exames Nacionais e o Insucesso Escolar


Fig. 1. Competências-chave são as competências em línguas e matemática.

Há cerca de dois anos desenhamos o gráfico da Fig. 1, que não publicamos, por falta de provas concretas. Graças às alterações efectuadas pelo Ministério da Educação nas provas dos exames nacionais nos últimos 2 ou 3 anos, que resultaram nas melhorias das notas médias em Matemática e Português, de 7 para 12 valores e na redução de reprovações de 60-70% para uns meros 10%, temos agora uma prova concreta daquilo que o gráfico afirma: um aluno médio que acaba a escola secundária não atinge os mínimos de competência exigíveis na escola primária.

Essa opinião foi confirmada pelos especialistas [1], que notam uma redução muito significativa nos níveis de conhecimento exigidos nos enunciados das provas de avaliação. Isso mostra que foi necessário baixar muito a fasquia para permitir a passagem da maioria dos alunos, constatada no último ano.

Referência:
1. Opinião da Sociedade Portuguesa de Matemática

ENSINO ESCOLAR: METAS E MEDIDAS

O estado deplorável do sistema escolar nacional é do conhecimento público, e cada um consegue apresentar diversos exemplos ilustrativos deste fenómeno. Vários remédios foram propostos, uma grande parte dos quais, incluindo as recomendações das entidades europeias, cita a necessidade de transformar o ensino num conjunto de prestadores de serviços educativos, de modo que os alunos e os seus pais possam escolher aquele prestador que proporciona um serviço educativo melhor.

Todavia, todos estes remédios falham em vários pontos importantes, nomeadamente:

1. O principal objectivo do sistema escolar é de proporcionar ao aluno as ferramentas necessárias para a sua aprendizagem futura, tanto no ensino superior, como ao longo da sua vida, além de conhecimentos e competências concretas.

2. Um sistema escolar, correctamente construído, deve proporcionar uma formação adequada (equivalente a uma avaliação objectiva de “Bom”) a um aluno médio.

As principais ferramentas do nosso aluno são o Português, e a Matemática, sendo esta última a língua comum das ciências exactas e tecnologias. As notas médias dos exames nacionais destas duas disciplinas são de 7, o que mostra uma incapacidade do nosso sistema escolar de proporcionar as ferramentas essenciais ao aluno médio. Não devemos esquecer ainda que a nossa taxa de abandono escolar é de 40%, assim, o sistema escolar consegue ensinar, com uma grande ajuda dos explicadores, apenas 1/5 dos alunos que entram no primeiro ano da escolaridade.

Analisando objectivamente os currículos escolares, concluímos que estes são suficientes, do ponto de vista de conhecimentos e competências que o aluno deveria obter. O problema, então, não está no que estamos a ensinar, mas sim no como.

Olhando atentamente para o ensino escolar, detectamos duas falhas metódicas gravíssimas, que impossibilitam um desenvolvimento intelectual adequado de um aluno médio.

A primeira é a aposta no pensamento crítico dos alunos, em detrimento de memorização sistematizada de conhecimentos, e em detrimento do desenvolvimento de capacidade de memorização. Há 30 anos, apostamos na criação de um ensino mais democrático, baseado no desenvolvimento da capacidade de pensamento crítico e criativo, eliminando por isso os exercícios para desenvolvimento da memória dos currículos de todos os anos. Esta aposta falha em dois aspectos. Em primeiro lugar, um aluno típico da escola primária (primeiro ciclo) não tem capacidade de pensamento crítico, aceitando de bom grado tudo que lhe seja dito pelos adultos. Mesmo que este aluno aparente uma capacidade razoável de pensamento crítico, na realidade apenas interpreta as dicas do professor, dadas voluntária ou involuntariamente. Entretanto, o pensamento crítico do aluno pode e deve ser desenvolvido, mas gradualmente, e nos alunos já com idade mais avançada, e, consequentemente, com capacidades mentais mais desenvolvidas. Em segundo lugar, abstendo do desenvolvimento da capacidade de memorização sistematizada do aluno, a escola não aproveita deste recurso que o aluno já possui, e que deve ser desenvolvido, desde logo, para proporcionar as bases para o próprio pensamento crítico, pois não há lugar para qualquer pensamento sem recurso aos conhecimentos memorizados.

A segunda é a aposta no método global (visual) de ensino de leitura. Este método para sua implementação correcta necessita de professores excelentes e bem preparados, pois na consequência de erros comuns na sua implementação os alunos não aprendem a ler fluentemente em tempo útil, o que consideramos ser o segundo ano da escola primária (primeiro ciclo). As tentativas falhadas dos últimos 30 anos de usar este método mais que justificam a sua proibição oficial, pois na consequência do seu uso cerca de 80% dos nossos alunos não aprendem a leitura atempadamente, com consequências graves para todo o seu percurso escolar.

Assim, para começarmos a reconstruir a nossa escola, devemos eliminar, e o mais depressa possível, as falhas metódicas mencionadas, sendo certo que os exercícios de memorização sistematizada devem ser reintroduzidas em todas as disciplinas de todos os ciclos, e não apenas na escola primária. Devemos ainda prescindir das tentativas fúteis de usar o "pensamento crítico e independente" dos alunos do 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico, cujo cérebro ainda não desenvolveu esta capacidade. Devemos admitir ainda que o processo de reconstrução vai ser demorado, pois as alterações introduzidas hoje não trarão grandes vantagens para os alunos que se encontram nos ciclos preparatórios e na escola secundária. Podemos tentar ensinar a estes alunos, mais uma vez, aquilo que não aprenderam quando deviam ter aprendido, embora sem grande esperança de sucesso.

Precisamos de corrigir, urgentemente, o paradigma do nosso ensino, fatalmente viciado por razões ideológicas.

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Matemática: Ensinar a Memorizar

As experiências educativas irresponsáveis dos últimos 30 anos criaram um conjunto de problemas de fundo no ensino escolar português, resolúveis apenas a médio e longo prazo. Entre estes, destaca-se a absolutização do raciocínio e criatividade em detrimento da memorização, ao longo de todo o percurso do aluno na Escola, o assunto deste capítulo.

Memorizar – para quê?

Os promotores das ditas experiências educativas dirão categoricamente que não é preciso memorizar ou decorar nada, basta perceber como as coisas funcionam, e assim consegue-se logo deduzir seja o que for, pensando logicamente. Vamos então recordar o que vimos na televisão na altura do tsunami na Indonésia – uma menina inglesa, tendo memorizado na escola e rapidamente recordado os indícios de um tsunami, logo comunicou as suas conclusões lógicas aos pais, e como resultado não só sobreviveu ela própria e a sua família, mas também todos os outros ocupantes do seu hotel. Entretanto, havia nas praias muitas outras pessoas, as quais não tinham qualquer conhecimento memorizado em relação a isso, então as suas capacidades de raciocinar criativamente também de nada lhes valeram para salvar a própria vida. Conclui-se que precisamos de desenvolver as duas coisas em harmonia, para podermos tanto usar o conhecimento já acumulado pela humanidade – pela memorização, como criar conhecimento novo, pelo raciocínio próprio.

Avaliação

Precisamos de um critério para avaliar a capacidade de memorizar dos nossos alunos. Ora, a Matemática é uma disciplina fundamental para todo o conhecimento exacto, que pode ser expresso por números, incluindo Ciências e Tecnologias. A Matemática lida com objectos abstractos, inexistentes na sua forma pura, definindo os mesmos, e estudando as suas propriedades, para futuros usos práticos. Os mais simples entre estes objectos são os números naturais, como 17. Para começar a usar Matemática, é preciso então saber – ou seja, ter memorizado – as respectivas definições dos objectos, com os quais estamos a trabalhar. Realmente, sem saber as prioridades das operações aritméticas, ensinadas na escola primária, para pouco servem os senos – cuja definição também é preciso saber, para aplicar as fórmulas na prática. Assim, a capacidade de memorização é mesmo imprescindível para Matemática, por outro lado, o aluno com boa capacidade de memorização sistematizada não falhará em Matemática.

Vamos então usar os resultados dos Exames Nacionais de Matemática para avaliar as capacidades de memorização dos nossos alunos. As notas médias destes exames rondam uns 7 valores. Assim, um aluno médio, tendo chegado ao fim do seu percurso escolar, não aprendeu mais que um terço do que devia. Mas a falta de competências matemáticas significa falhas nas capacidades de memorização, as quais deverão ser desenvolvidas na Escola, mediante exercícios persistentes. Senão, as capacidades de memorização se atrofiam, como qualquer outra capacidade humana não utilizada: deixam de saber andar os doentes, acamados durante muito tempo. Assim, avaliamos a capacidade de memorizar sistematicamente dos nossos alunos, com a nota de “Não Satisfaz”.

Sintomas

As falhas na capacidade de memorização sistematizada revelam-se fatais para o ensino da Matemática, e de todas as outras disciplinas que requerem uma capacidade de raciocínio abstracto, não desenvolvida na Matemática. Entre estas destacaremos Física, da qual ninguém gosta, pois esta tem muitas noções fundamentais abstractas, como “ponto material”. Muitas outras disciplinas, como Psicologia, dependem apenas das experiências da vida quotidiana, e são muito amadas pelos alunos.

Muitos alunos “estudam para testes”, recorrendo à memorização indiscriminada, para assim evitar o insucesso escolar. Eles decoram páginas inteiras da matéria “que vai sair”, e depois copiam da memória para a folha do teste, esperando incluir na resposta alguma coisa relevante. Infelizmente, este tipo de memorização pouco ou nada ajuda ao aluno: este não consegue aproveitar os conhecimentos decorados em futuras ocasiões, e estuda do zero para cada teste , na falta de informações sistematicamente memorizadas. Estes alunos não conseguem estabelecer qualquer relação entre o que estão a estudar, e o que já aprenderam noutras disciplinas, ou em anos anteriores. A desculpa muito frequente do tipo “não me lembro disso, isso foi dado já há muito tempo, ainda na primária” é um indício muito claro, que aponta às falhas gravíssimas e muito comuns nas capacidades de memorização sistematizada dos nossos alunos.

Diagnóstico

Os alunos não desenvolvem as suas capacidades de memorização, pois os exercícios para isso necessários foram excluídos de programas de todas as disciplinas escolares. Isso conduz ao insucesso escolar da maioria dos alunos, provocado pelos métodos e programas de ensino, manifestamente inadequados. Saliente-se que as insuficiências ao nível de qualificação de professores pouco contribuem para o insucesso escolar generalizado.

Metas

O ensino na Escola Primaria deverá ser baseado no desenvolvimento e aproveitamento das capacidades de memorização sistematizada. Os elementos de raciocínio crítico e criatividade deverão ser introduzidos nos programas escolares gradualmente, ao longo do percurso escolar do aluno, ocupando um espaço cada vez maior na medida do seu crescimento e desenvolvimento intelectual, atingindo uma maior expressão na Escola Secundária.

Medidas

Assim, os livros escolares e os materiais metódicos de todas as disciplinas e de todos os anos deverão ser reeditados, para incluir exercícios para o desenvolvimento das capacidades de memorização sistematizada. Isso inclui poemas nas aulas de Português, tabuada, definições e fórmulas na Matemática e Ciências, nomes dos Reis de Portugal e datas históricas, Hino Nacional, e todos os outros conteúdos programáticos que não se deduzem logicamente. Além disso, devemos deixar de perder o tempo com as tentativas de usar o "pensamento crítico e independente" dos alunos do 1º e 2º Ciclos de Ensino Básico, pois as respectivas capacidades cerebrais só se desenvolvam mais tarde.