Um Curso Superior - Direito, Privilégio ou Necessidade?

A massificação do sistema de ensino, feita há cerca de 30 anos, com multiplicação das escolas do ensino secundário e das universidades, proporciona o acesso ao ensino a todos que queiram estudar. Esta medida foi considerada uma das medidas-chave no caminho da nossa sociedade para a modernidade e progresso.

Entretanto, passados 30 anos, todos reconhecem que o sistema de ensino se encontra num estado péssimo. As razões para isso, no que diz respeito à Escola, já foram abordados nos artigos anteriores [1-3]. Agora vamos analisar os resultados na parte final do sistema de ensino, ou seja no Ensino Superior.

Competitividade na entrada para o ensino superior

A competitividade na entrada existe, embora apenas para certos cursos de maior prestígio social, por exemplo medicina e para outros, com prestígio social mais moderado, mas ministrados pelas universidades de maior prestígio. Para muitos outros cursos a competitividade é efectivamente inexistente visto que são admitidos alunos com média escolar pouco superior a 9,5 valores, cujo nível objectivo de conhecimentos corresponde a 6 ou 7 valores [4], ou seja, são admitidos pessoas com demonstrada incapacidade para estudar. Saliente-se que na grande maioria dos casos a culpa dos resultados fracos não é atribuível ao aluno, mas sim ao sistema escolar incompetente [1].

Incompetência do estudante e desvirtuação do ensino superior

Deparando com a falta de estudantes competentes em muitos cursos, conjugada com a falta de competitividade nas entradas, provocada tanto pelas razões de ordem demográfica como pela degradação avançada do sistema escolar, as universidades têm que ensinar estudantes manifestamente incompetentes, sem conhecimentos básicos de Português e Matemática, sem capacidade de memorização e de raciocínio e sem capacidade de aprender [1-3].

Estes estudantes são avaliados, mas, na falta de conhecimentos que não conseguem adquirir, são avaliados em algo diferente, de mesmo modo que os alunos da escola secundária nos exames nacionais [4]. Usa-se, por exemplo, avaliação por trabalhos em vez dos exames. Este recurso é muito usado pelos professores e resulta da falta de capacidade para a aprendizagem por parte dos alunos. Muitos vezes estes trabalhos são elaborados pelos estudantes por cópia directa dos trabalhos feitos por outros, disponíveis na Internet, sem que o estudante percebesse a matéria ou aprendesse a usar os conhecimentos expostos nestes trabalhos. Além de práticas educativas moralmente condenáveis, este tipo de ensino superior cria "especialistas" incompetentes, sendo por isso um desperdício de recursos públicos.

Além de uma avaliação que desloca o foco de conhecimentos e competências específicos das disciplinas para os conhecimentos e competências gerais, tais como fazer pesquisas na Internet e preparar trabalhos bem formatados a partir desta informação, o ensino de estudantes incompetentes numa universidade implica a degradação dos outros componentes do processo de ensino. Nomeadamente, numa turma fraca não se conseguem resolver tantos exercícios nas aulas teórico-práticas nem se conseguem dar trabalhos para casa contendo exercícios em número razoável e de dificuldade suficiente, já que os estudantes são incapazes fazer mesmo as coisas mais simples. Para essas, deviam bastar as competências supostamente já adquiridas pelos estudantes ainda durante o ensino secundário, mas que adquiridos nunca foram, por ter sido aplicada na Escola uma avaliação tão disparatada e fraudulenta como a da Universidade.

Curso superior como necessidade social

Sendo a formação superior um pré-requisito de muitas profissões, tornando-se uma necessidade quase universal na sociedade moderna, sendo esta formação custeada pela nossa sociedade, ela deve ser rentável, no sentido de produzir quadros de qualidade e num espaço de tempo razoável. Não se deve tornar num negócio, mas também não pode continuar a desperdiçar o financiamento público, levando 50% recursos a mais para formar quadros de qualidade apenas medíocre. Para isso as universidades devem subir a média mínima de entrada, até pelos menos 12,0 valores, o que ia reproduzir a situação existente antes de 2005 [4], ou ainda mais, passando a não admitir estudantes que não tenham demonstrado capacidade de estudar.

Medidas propostas

A curto prazo: subir as médias mínimas de entrada, até 12,0 valores ou mais [4].
A médio prazo: repor a validade científica e pedagógica no ensino escolar [1-3].

Referências

1. Erros Conceptuais da Escola
2. Matemática: Ensinar a Memorizar
3. Ensinar a ler pelo método fonético (sintético)
4. Exames Nacionais antes e depois de 2005

2 comentários:

Mário de Noronha disse...

Julgo que exigir apenas boas notas em certos cursos como os de Direito e Medicina, sem querer avaliar se os alunos têm aptidão e qualidades humanas para exercer essas funções faz correr o risco de termos esquizofrénicos e psicopatas a exercer essas prifissões.
Não exigir uma nota mínima além de capacidade para exercer essas funções também me parece ser um erro muito grave que está a ser cometido.
Quanto a médicos, estou vacinado e continuo a ser «maltratado». Ver o post sobre ATRIBUIÇÕES no antigo blog psicologiaparaque.blogspot.com

André Freire disse...

Boa noite!
Gostaria de conseguir aceder a todas as páginas deste blog, infelizmente não tenho permissão para aceder a algumas (por exemplo, não consigo aceder à página para a qual o link no segundo parágrafo deste post me direcciona). Será possível resolver esta questão?
Obrigado,
André Freire